Os Clássicos da Política – Por Lucas Ferraz

Os Clássicos da Política

  • Maquiavle

Capítulo 1 – Maquiavel*

Os séculos que sucederam a queda do Império Romano foi o período mais conturbado da história italiana. De capital do maior império do mundo, a Itália se tornou um país fragmentado em quase uma dezena de repúblicas e principados constantemente sob ameaça dos seus vizinhos, lutando para sobreviver contra a dominação francesa, espanhola e austríaca. Para restaurar a sua antiga magnitude como uma potência mundial, a Itália precisava de um governante virtuoso e da simpatia do destino. Se quisesse alcançar seu “Risorgimento”, a Itália precisaria de um príncipe.

Foi nesse contexto que, em 1513, em Florença, Nicolau Maquiavel publica seu livro mais famoso, “O Príncipe”. Maquiavel é talvez um dos pensadores mais controversos, colecionando críticos e até mesmo se tornando sinônimo de falsidade: algo maquiavélico, no senso comum, é algo ardiloso, traiçoeiro. É também um dos pensadores mais mal interpretados nesse sentido.

O livro de Francisco C. Weffort, “Os Clássicos da Política” busca justamente apresentar ao leitor uma síntese das principais ideias de alguns dos filósofos e pensadores mais importantes de seu tempo e cujas contribuições perduram até hoje. Organizado por Weffort, o livro conta com a coautoria de professores do curso de ciência política da USP, que escreveram sobre Maquiavel, Hobbes, Locke, Montesquieu, Rousseau e “Os Federalistas” (pais fundadores dos Estados Unidos). O capítulo que será discutido, sobre Maquiavel, foi escrito por Maria Tereza Sadek.

O que diferencia Maquiavel dos filósofos políticos mais conhecidos é que ele não apresenta nenhum sistema de crenças ou ideologia claramente, mas, na verdade, fala do Estado e do poder como eles são, e não como deveriam ser. O florentino se preocupava muito mais com a “Veritá Effetuale”, ou seja, com a realidade dos fatos e as implicações práticas da política do que como pensar um Estado ideal de fato. “O Príncipe” foi muitas vezes referenciado na história como um manual para tiranos, no qual Maquiavel ensina, seja para republicanos eleitos seja para conquistadores, como governar com Virtú e conquistar a Fortuna a seu favor.

Para entender o pensamento Maquiaveliano é preciso primeiro entender seus conceitos principais. Nos seus livros, o leitor irá se deparar muitas vezes com as palavras “Fortuna” e “Virtú”. Maquiavel se utiliza da primeira para descrever, basicamente, a sorte: os eventos imprevisíveis que se sucedem durante o governo de um Príncipe. Fortuna significa, literalmente, sorte, mas também faz referência à deusa romana – Cornucópia – da sorte. Esse paralelo não é por acaso, Maquiavel acreditava que, embora o destino fosse implacável, como uma deusa, ela ainda poderia ser conquistada por homens de virtude e trabalhar a seu favor. Virtude, nesse caso, não se refere à ideia cristã, nem mesmo aristotélica, de virtude. Para Maquiavel, a “Virtú” é simplesmente a capacidade que um governante tem de se manter no poder, mesmo que por meios moralmente questionáveis.

Como já explicitado, Maquiavel não faz juízo moral ou almeja nenhum Estado ideal em termos ideológicos. É claro, portanto, que a frase mais famosa atribuída a ele, “Os fins justificam os meios”, não condiz com os outros aspectos do seu pensamento. De fato, Maquiavel nunca disse isso. No texto original, ele simplesmente constata que, uma vez alcançada uma conquista positiva aos olhos do povo, ele, povo, não se importaria com os meios usados para chegar a tal estado de coisas. Interpretações equivocadas como essa por parte dos diversos inimigos que o pensador fez durante a vida e postumamente foram responsáveis por render à própria palavra, “maquiavélico”, uma conotação ruim por si só. Maquiavel, entretanto, bem como todos os outros filósofos e pensadores trazidos ao longo deste livro, é essencial para entender a formação do Estado moderno e foi, decerto, um cidadão sem fortuna e um pensador de virtú.

“Maquiavel, fingindo dar lições aos príncipes, deu grandes lições ao povo.”
– Rousseau

 

  • Livro Os Clássicos da Política – Francisco Welfort. Francisco C. Weffort, com a colaboração dos professores da área de ciência política da Universidade de São Paulo, reúnem textos de pensadores cujas idéias sobreviveram ao seu próprio tempo. Neste volume o leitor encontra textos fundamentais para a compreensão de Maquiavel, Hobbes, Locke, Montesquieu, Rousseau…